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domingo, fevereiro 28, 2010

Nasce uma atriz


Todos se sentam e ele ordena com voz forte:
_Tira a roupa!!
Meu estomâgo se revira de pavor e vergonha, abaixo a cabeça, os pés parecem estar grudados no chão.
Ouço novamente a voz dele, agora com mais ênfase:
_Vamoooos, tira a roupa!
Timidamente começo a me mexer, com os olhos fixos no chão, tiro primeiro os sapatos, depois tiro o casaco...
Ele me chama, agora com uma delicadeza quase sonolenta:
_Olhe nos meus olhos e imagine que sou um espelho!
Pensei em mim com 12 anos, usando os sapatos da mamãe e dançando na frente do espelho, caí na gargalhada, foi como se uma descarga de adrenalina tivesse vindo não sei de onde...
Olhei nos olhos dele, encarei como se sentisse ódio e dancei frenéticamente tirando a roupa, ficando somente de calcinha e sutiã.
Ele se levantou, veio até mim e me deu um abraço, em seguida ouvi os aplausos e ele sussurrou no meu ouvido:
_Eu sabia que morava mais alguém aí dentro...

Ali nascia Chantal. Garota nascida na França. Foi deixada num orfanato ainda bebê envolta em um xale de lã branco, única lembrança de sua infância. Aos 18 anos foi em busca do sonho de ser bailarina, mas sozinha e sem dinheiro, foi engolida pelas ruas de Paris, o único lugar onde foi acolhida foi a casa de Mademe Virginie, seu tipo mignon, seus longos cabelos castanhos, sua pele branca, seus olhos negros sempre pintados de preto, seus lábios fartos e vermelhos, logo caíram nas graças dos ilustres cavalheiros frequentadores do lugar, assim tornou-se prostituta.
Todas as noites após atender seus clientes, sentava-se sozinha numa mesa escondida e esperava pacientemente o primeiro cavalheiro convidá-la a dançar o ritmo que estivesse tocando no imenso salão de baile, dizia: " Meu turno já terminou, agora sou apenas Chantal, a bailarina", rodopiava com leveza, um grande sorriso se estampava em seu rosto e ali ela tornava realidade o seu sonho, nem que fosse apenas por alguns instantes.

Foi amor à primeira vista, por isso foi uma imensa alegria dar vida a tal mulher...assim me apaixonei pelo cheiro que só o teatro tem, assim eu quis mais a agitação de uma coxia no dia de uma estréia, assim visualizei rostos borrados e me senti numa espécie de transe que jamais poderei explicar, assim nasceu a atriz que mora em mim.