Os homens de espírito livre, que vivem só para o conhecimento, em breve acharão ter alcançado a sua definitiva posição relativamente à sociedade e ao Estado e, por exemplo, dar-se-ão de bom grado por satisfeitos com um pequeno emprego ou com uma fortuna que chega à justa para viver; pois arranjar-se-ão para viver de maneira que uma grande transformação dos bens materiais, até mesmo um derrube da ordem política, não deite também abaixo a sua vida. Em todas essas coisas eles gastam a menor energia possível, de modo a poderem imergir, com todas as forças reunidas e, por assim dizer, com um grande fôlego, no elemento do conhecimento. Podem, assim, ter esperança de mergulhar profundamente e também de, talvez, verem bem até ao fundo.
De um dado acontecimento, um tal espírito pegará de bom grado só numa ponta: ele não gosta das coisas em toda a sua amplitude e superabundância das suas pregas, pois não se quer emaranhar nelas. Também ele conhece os dias de semana da falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos a tempos, tem de lhe aparecer um domingo de liberdade, senão ele não suportará a vida. É provável que mesmo o seu amor pelos seres humanos seja cauteloso e com pouco fôlego, pois ele só quer meter-se no mundo das invejas e da cegueira na medida em que isso seja necessário à finalidade do conhecimento. Tem de confiar em que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor do seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras lhe vierem a chamar pobre de amor. Há na sua maneira de viver e de pensar um heroísmo refinado, que desdenha oferecer-se à grande veneração das massas, como o faz o seu irmão mais grosseiro, e que costuma andar pelo mundo e sair do mundo em silêncio. Sejam quais forem os labirintos que ele percorra, sejam quais forem os rochedos, por entre os quais a sua corrente tenha, de vez em quando, aberto passagem penosamente... assim que chega à luz, segue o seu curso, límpido, leve e quase sem ruído, e deixa brincar os raios do Sol até ao fundo do seu leito.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
De um dado acontecimento, um tal espírito pegará de bom grado só numa ponta: ele não gosta das coisas em toda a sua amplitude e superabundância das suas pregas, pois não se quer emaranhar nelas. Também ele conhece os dias de semana da falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos a tempos, tem de lhe aparecer um domingo de liberdade, senão ele não suportará a vida. É provável que mesmo o seu amor pelos seres humanos seja cauteloso e com pouco fôlego, pois ele só quer meter-se no mundo das invejas e da cegueira na medida em que isso seja necessário à finalidade do conhecimento. Tem de confiar em que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor do seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras lhe vierem a chamar pobre de amor. Há na sua maneira de viver e de pensar um heroísmo refinado, que desdenha oferecer-se à grande veneração das massas, como o faz o seu irmão mais grosseiro, e que costuma andar pelo mundo e sair do mundo em silêncio. Sejam quais forem os labirintos que ele percorra, sejam quais forem os rochedos, por entre os quais a sua corrente tenha, de vez em quando, aberto passagem penosamente... assim que chega à luz, segue o seu curso, límpido, leve e quase sem ruído, e deixa brincar os raios do Sol até ao fundo do seu leito.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

